Brasil Pipoca Combo - A. Melo Clichê. Palavra geralmente confundida com “previsível”. Quando o resultado de uma história é aquele mais do que esperado, o carimbo com as seis letrinhas é pressionado sobre ela. O Lobisomem, nova versão do clássico outrora escrito por Curt Siodmak e, agora, dirigido por Joe Johnston (dos divertidos Jumanji, Querida, Encolhi as Crianças ... Leia mais Clichê. Palavra geralmente confundida com “previsível”. Quando o resultado de uma história é aquele mais do que esperado, o carimbo com as seis letrinhas é pressionado sobre ela. O Lobisomem, nova versão do clássico outrora escrito por Curt Siodmak e, agora, dirigido por Joe Johnston (dos divertidos Jumanji, Querida, Encolhi as Crianças e do descartável Jurassic Park III), não é previsível, é clichê mesmo (na verdade, chega a ser, de fato, um tanto previsível quando já se espera um próximo clichê uivadas intermináveis a frente).
Não há diferenças ou grandes adaptações, por assim dizer. A trama de O Lobisomem, de tão simples que é, já está integrada ao conhecimento geral por absorver rasamente o personagem folclórico. Fazendo as vezes dos roteiristas Andrew Walker e David Self (ou seja, simplificando), a trama é básica, quase sinóptica. Novas idéias, remodelagens ou recaracterização psicológica de personagens estão de fora. O atual filme do homem que se transforma em besta se limita unicamente a refilmar um produto antigo e tão desgastado quanto os elementos que coloca em pauta. O resultado é um emaranhado de falhas que estampam o quanto estavam desencorajados os seus produtores. Faltou audácia.
Benicio Del Toro (aqui irrelevante se comparado às suas atuações em longas anteriores) é Lawrence Talbot, um ator inglês do final do século XIX que vai até um vilarejo onde mora sua antiga família em busca de pistas sobre o assassinato brutal de seu irmão. Lá, além do pai de afetos questionáveis (Anthony Hopkins), encontra sua cunhada, Gwen (Emily Blunt, à caminho de um bom trabalho), que deseja mais do que tudo saber a verdade, assim como Lawrence. Logo se descobre a existência de um lobisomem no vilarejo e, em uma noite de caçada às respostas, Lawrence é atacado, mordido e passa a carregar a maldição cujo único fim se dará através de um grande amor ou uma bala de prata. Não passa disso. O resto é um conjunto de situações idênticas às já amplamente vistas em seja lá que tipo de filmes, permeadas por frases idem com comandos do tipo “Vá, fuja… Eu jamais me perdoaria se [neste ponto você já adivinhou o final da frase] eu fizesse algo de ruim a você”. Daí para o final dos 102 minutos de projeção, não muda muita coisa.
Mas O Lobisomem tem força; bruta e autodestrutiva, mas tem. Poucos filmes são tão nocivos a si mesmos quanto este, numa problemática que se estende até a técnica fraca que, às vezes, pode passar despercebida pelo requinte da direção de arte. A sonoplastia se propõe a causar nos ouvidos os sustos que o componente visual não é capaz. Mesmo assim, o efeito só alcança realidade com os mais desavisados e, de qualquer forma, perde o impulso a partir da metade, quando já se tornou mais clichê do que já era na abertura do filme (também fraquíssima, diga-se de passagem), se é que isso é possível. Quando já não se espera mais nada deste elemento, há o abuso em atribuir a animais empalhados os seus respectivos sons. A fotografia se aproveita de olhares menos atentos e tenta projetar na neblina o brilho do luar que vem de canhões de luz do chão. Já a maquiagem, em certos momentos de descuido em averiguar até que ponto da captação de imagens a prótese sem posterior computação é viável, alcança o mesmo realismo nas mandíbulas do animal que os monstros de séries televisivas antigas, mas se dá bem em incrementar Del Toro na sua primeira cena após a noite de estreia como lobisomem. Já os efeitos visuais até colaboram na medida do possível, fazendo da cena de transformação no hospício (que também não escapa de pinceladas aqui e ali de comicidade e desgaste) um dos poucos destaques do longa, em companhia das boas sequências de assassinato que pela primeira vez levam o animal às vias de fato, devorando brutalmente desde caçadores a simples pedestres.
Se a finalidade de O Lobisomem era reprisar com a boa técnica atual uma antiguidade do cinema, a missão foi cumprida, mesmo que pela metade. Mas se havia algum interesse por parte Joe Johnston e Benicio Del Toro (que também assina como um dos produtores da fita) em reestruturar o conceito para atingir algum sucesso (algo como tem feito os reboots), isto se perdeu nas linhas de um roteiro que mal soube praticar uma história sedenta por novidade e desejosa de extrações de seus repetecos. Pode descer o carimbo.
Fonte: Pipoca Combo - A. Melo
Bom