CineZen Cultural - André Azenha
O que poderia ser uma simples investigação, se torna uma terrível perseguição por corredores de um labirinto obscuro da natureza humana. “Ilha do Medo” - que estreou mundialmente no Festival de Berlim, fora da competição oficial do evento – é um daqueles filmes que prende a atenção até o final, para o bem e para o mal.
Em 1954, o detetive federal Teddy Daniels (Leonardo DiCaprio) chega de balsa em Ashecliffe Hospital, uma “fortaleza” localizada numa ilha que teoricamente deveria servir para curar a insanidade de pacientes criminosos. Teddy está lá para solucionar o misterioso desaparecimento de uma prisioneira que afogou os seus três filhos. Como ela teria fugido? O quarto onde ficava era constantemente monitorado, estava completamente intacto e a porta trancada por fora.
O grande problema para Teddy é que logo ele começa a sentir que ninguém está a seu favor, a começar pelo enigmático diretor Dr. Cawley (Ben Kingsley), passando pelos médicos e enferm Leia mais O que poderia ser uma simples investigação, se torna uma terrível perseguição por corredores de um labirinto obscuro da natureza humana. “Ilha do Medo” - que estreou mundialmente no Festival de Berlim, fora da competição oficial do evento – é um daqueles filmes que prende a atenção até o final, para o bem e para o mal.
Em 1954, o detetive federal Teddy Daniels (Leonardo DiCaprio) chega de balsa em Ashecliffe Hospital, uma “fortaleza” localizada numa ilha que teoricamente deveria servir para curar a insanidade de pacientes criminosos. Teddy está lá para solucionar o misterioso desaparecimento de uma prisioneira que afogou os seus três filhos. Como ela teria fugido? O quarto onde ficava era constantemente monitorado, estava completamente intacto e a porta trancada por fora.
O grande problema para Teddy é que logo ele começa a sentir que ninguém está a seu favor, a começar pelo enigmático diretor Dr. Cawley (Ben Kingsley), passando pelos médicos e enfermeiras que chegam a zombar de suas perguntas. Surge também a figura sarcástica e sinistra do Dr. Naehring (Max von Sydow), a quem Teddy suspeita ser um nazista que está praticando suas experiências na América – como lobotomia e uso de drogas radicais.
A única pessoa que parece entender o policial é o seu novo parceiro Chuck (Mark Ruffalo). Aos poucos, vamos descobrindo por flashbacks que, no meio de todos aqueles psicopatas, o protagonista é um sujeito atormentado por uma constante dor de cabeça e o pior: algumas lembranças não o deixam em paz – ele é um ex-soldado que presenciou os terrores da Segunda Guerra. Além disso, ele descobre que o homem causador do incêndio que dizimou o prédio onde morava, causando consequentemente a morte de sua esposa (Michelle Willians), está preso no local.
Em sua quarta parceria com Leonardo DiCaprio (fora esse, eles colaboraram em “Gangues de Nova York”, “O Aviador” e “Os Infiltrados”), Martin Scorsese fez uma homenagem aos antigos filmes B, utilizando características de obras cinematográficas que o influenciaram. Está tudo lá. O cientista louco, delírios, alucinações, o mistério, frases-clichê, a fumaça, muito dos longas de Roger Corman, com quem Scorsese trabalhou, até lampejos de obras de Alfred Hitchcock, Stanley Kubrick (“O Iluminado”), Mario Bava, Jacques Tourneur e Don Siegel. Claro, também há instantes que remetem aos próprios clássicos de Scorsese. A fumaça e a chuva de “Táxi Driver” são as primeiras características que vem à mente para conhecedores da filmografia do diretor.
“Ilha do Medo”, adaptado do romance homônimo de Dennis Lehane — que já viu seus livros serem transformados nos filmes “Sobre meninos e Lobos”, e “Medo da Verdade” -, apesar de transbordar tensão, loucura e paranóia, não faz parte do gênero terror, como o trailer deu a entender. E nem investe na violência física dos trabalhos anteriores de Scorsese. Aqui, o cineasta insere a violência de forma psicológica, e assume sua opinião de que todo ser humano é violento, como diz o diretor da prisão em certo momento da trama. Para ele, basta que qualquer um de nós seja colocado numa situação limite para se tornar agressivo, selvagem.
Para quem ainda tiver alguma dúvida sobre essa opinião do cineasta, uma boa dica é a leitura de “Como a Geração Sexo-Drogas-e-Rock’n Roll Salvou Hollywood”, no qual o autor Peter Biskind retrata Scorsese como alguém que evita confrontos diretos com outras pessoas e despeja toda sua ira nos filmes que realiza.
Alçado à categoria dos gênio da sétima arte, e após ter ganhado o Oscar de Direção por seu longa anterior, “Os Infiltrados”, Martin sabiamente evitou a pressão por uma nova obra prima, por novos prêmios. Ao fazer um filme “menor” (e o “menor” dele ainda é muito maior que as obras de outros diretores), de forma esperta, ele quis dizer: estou fazendo um filme desencanado. E assim, evitou os bombardeios da crítica, que, inclusive, relevou alguns defeitos do longa – o final pode ser percebido com certa antecedência.
Mas “Ilha do Medo” é muito bem filmado, montado de forma correta e com bela fotografia. Tecnicamente é uma aula de cinema. E conta com um elenco em grande fase. DiCaprio, por sinal, vive o personagem mais assombroso de sua carreira; Ben Kingsley dispensa comentários; Mark Rufallo, Michelle Willians, Patricia Clarkson, Jackie Earle Haley (em curta aparição, porém marcante como sempre), até o elenco de coadjuvantes e figurantes, todos correspondem.
Se um thriller tem a missão de causar tensão na plateia e de mantê-la concentrada na tela até o fim da projeção, “Ilha do Medo” cumpre seu dever com louvor. É um filme de Scorsese, mas não é um filme de Scorsese, que realizou um exercício de estilo com seu toque pessoal. E só por isso, já vale a conferida.
Fonte: CineZen Cultural - André Azenha
Ilha do Medo é um filme absolutamente à parte na filmografia de Martin Scorsese – razão suficiente para desde já suscitar muita polêmica e divergências de gosto. Ele, que frequentemente é apontado como o maior diretor de cinema norte-americano vivo, consagrado sobretudo por suas obras de gângsteres e do universo da máfia, aqui faz um filme de suspense bastante soturno, um thriller psicológico assombroso. Ainda que possua diversos elementos em comum com alguns de seus maiores clássicos, Scorsese arrisca-se em um território relativamente inédito para o seu cinema, ousando flertar de forma mais direta com o estilo de Alfred Hitchcock e o gênero de film noir, nesta adaptação do livro homônimo de Dennis Lehane.
Famoso por suas parcerias duradouras como as que teve com Harvey Keitel, Joe Pesci e principalmente Robert De Niro, Ilha do Medo já é o seu quarto trabalho protagonizado por Leonardo DiCaprio, a quem cujo talento ele atribui o ânimo para continuar fazendo cin Leia mais Ilha do Medo é um filme absolutamente à parte na filmografia de Martin Scorsese – razão suficiente para desde já suscitar muita polêmica e divergências de gosto. Ele, que frequentemente é apontado como o maior diretor de cinema norte-americano vivo, consagrado sobretudo por suas obras de gângsteres e do universo da máfia, aqui faz um filme de suspense bastante soturno, um thriller psicológico assombroso. Ainda que possua diversos elementos em comum com alguns de seus maiores clássicos, Scorsese arrisca-se em um território relativamente inédito para o seu cinema, ousando flertar de forma mais direta com o estilo de Alfred Hitchcock e o gênero de film noir, nesta adaptação do livro homônimo de Dennis Lehane.
Famoso por suas parcerias duradouras como as que teve com Harvey Keitel, Joe Pesci e principalmente Robert De Niro, Ilha do Medo já é o seu quarto trabalho protagonizado por Leonardo DiCaprio, a quem cujo talento ele atribui o ânimo para continuar fazendo cinema de maneira tão produtiva. No auge da forma como ator dramático, DiCaprio vive o perturbado detetive da polícia federal Teddy Daniels, enviado para a “Shutter Island”, a remota ilha que dá título ao filme, onde funciona um estranhíssimo presídio para sociopatas, um manicômio de segurança máxima que faria o hospital psiquiátrico de Um Estranho no Ninho (1975) parecer um ingênuo jardim de infância. Junto com seu parceiro Chuck (Mark Ruffalo, em boa atuação), vai para o isolado lugar a fim de desvendar o mistério do desaparecimento de uma assassina perigosa, acusada de matar os próprios filhos. Lembranças da vida passada do detetive virão à tona, e este é apenas o ponto de partida de uma trama complexa com desmembramentos que se tornam cada vez mais instigantes e insolucionáveis.
Logo neste início de projeção, há um uso ostensivo da trilha sonora como artifício para criar medo e suspense, algo que irá remeter diretamente ao cinema de Alfred Hitchcock. Os arranjos dissonantes do naipe de metais fazem o clima, e lembram muito o trabalho de Bernard Herrmann (o colaborador usual de Hitckcock). A trama se passa nos anos 50, portanto todo o figurino, indo dos chapéus, os sobretudos e todos os trejeitos da dupla de detetives seguem uma recriação de muitos arquétipos da Era de Ouro de Hollywood: DiCaprio é apresentado como um típico personagem de film noir, lembrando muito o detetive vivido por Glenn Ford de Os Corruptos (1953); Ruffalo fala com dicção desleixada, fiel a de Marlon Brando quando jovem. Além de toda a direção de arte cuidadosa em recriar a atmosfera da época, e a fotografia caprichar no jogo de luz e sombras característico do gênero, Scorsese não se cansa de fazer referências à história do cinema em seus filmes, e aqui não seria diferente. A mais notável é o enquadramento do chuveiro em uma cena de DiCaprio no banho, tal como em Psicose (1960).
Apesar de uma ambientação que lembra constantemente a aura de alguns dos filmes do mais alto cânone cinematográfico, narrativamente, porém, é inegável que Scorsese opta em Ilha do Medo por uma levada que encontra similaridades e um apelo típico do cinema de suspense comercial contemporâneo – até mesmo M. Night Shyamalan. Reviravoltas absurdas, labirintos psicológicos, ritmo acelerado, uma mescla constante de delírio e realidade e, ao fim, claro: uma revelação derradeira, chocante, que dá novo sentido e dinâmica para toda a história, altamente ambígua e discutível. Seria surpreendente se já não fosse algo formulaico em termos de roteiro, mas inegavelmente incendiária e com capacidade de envolver inteiramente o espectador até o último minuto. Ainda que pese um teor mais comercial em Ilha do Medo, engana-se quem pensa que Scorsese cai numa simples gratuidade de gênero. Pelo contrário: a trama serve de pano de fundo para uma reflexão muito mais profunda e abrangente do que inicialmente pode se supor.
Primeiro, pelo momento em que se desenrola a história: 1954 é o epicentro dos anos inseguros, a absoluta incerteza que representa o pós-Segunda Guerra, onde o mundo ainda se ressentia da maior catástrofe já ocasionada pela própria humanidade. Como levar a vida adiante, sabendo que a carnificina e a culpa ainda estão tão presentes no imaginário coletivo? Como conviver com as imagens de extermínio, o holocausto, as pilhas de corpos mortos em campos de concentração ainda tão frescas na memória? O impacto disso mudou o mundo, e esse é o verdadeiro tema central de Ilha do Medo.
Havia uma nova revolução vindo à tona, uma nova ordem de jovens que queria, até mesmo inconscientemente, negar todo o passado e a tradição cultural existentes. O que estava em voga no cinema deste período era justamente a impotência do homem diante do horror e a nova ordem que tomava conta do mundo. O cinema da época estava absolutamente centrado nessa ideia, de Hiroshima Meu Amor (1958) a Sindicato de Ladrões (1954), passando por vários de Nicholas Ray. É justamente sobre essa insegurança do pós-guerra que se baseia Hitchcock, que colocava James Stewart, justamente um ex-galã e maior símbolo do “bom americano” no papel de um policial limitado e inseguro em Um Corpo que Cai (1958), descaradamente o filme que serve de maior influência para Ilha do Medo. Neste grande clássico do diretor inglês, o detetive se vê impotente após tomar consciência de sua própria incapacidade frente à realidade, carregando a culpa e o trauma paralisador por ter deixado que uma pessoa morresse inocentemente.
Também discutida de forma velada em Ilha do Medo, está o papel cultural da bomba atômica no século XX. Talvez a grande responsável pela revolução jovem no mundo, a onipresente possibilidade de que o planeta iria para os ares de um momento qualquer para o outro foi a mola propulsora para um ímpeto anárquico do aproveitar a vida aqui e agora, fomentando comportamentos inconsequentes e insanos, algo que culminou no desenvolvimento de novas drogas (sejam psicotrópicas ou alucinógenas) e no seu abuso – o rock surgiu justamente no ano em que se passa o filme. E com o advento da TV, citada pelos personagens do manicômio como "as vozes que invadem seu mundo", ficava cada vez mais discutível o conceito de possuir uma identidade própria, uma vez que o comportamento humano ficou cada vez mais à mercê das revoluções comportamentais. Quem sou “eu” nesse novo mundo repleto de novas realidades?
É irônico que Martin Scorsese, que é um grande estudioso da história do cinema, tenha optado por um projeto com esse viés logo após quebrar um jejum de mais de três décadas para finalmente ganhar o Oscar, um peso que carregou por toda a sua carreira. Ilha do Medo parece seu acerto de contas com o passado, um filme que fez despretensiosamente, movido somente por sua paixão pelo cinema. Mesmo assim, consegue ser ousado sem deixar de ser comercial. Ele, que passou de promissor talento independente, foi a própria vanguarda do grande cinema americano nos anos 70. Hoje é um veterano da velha guarda, medalhão dos estúdios, que com este filme busca uma nova identidade e frescor – algo que não fazia há muitos filmes. Ilha do Medo talvez surja para exorcizar sua imagem de cineasta católico que faz filmes sobre a máfia. Se o peso do passado lhe permitir.
Fonte: Cine Players - J. Mion Cineclick - Heitor Augusto
Martin Scorsese, sempre hábil em apontar a crueldade do ser humano sem deixar de manter as esperanças, aposta, em Ilha do Medo, na loucura e em como o sonho é o único jeito de se proteger do mundo real.
É um suspense em torno da procura do policial Teddy (Leonardo DiCaprio) por uma paciente perdida em um manicômio na Shutter Island. Se olharmos para trás em busca dos suspenses de alto nível, o que os une é a habilidade de acrescentar os elementos gradualmente na trama, criar as pontas de dúvida que nos mantenham interessados no filme, descobrir novas características dos personagens para, com tudo isso, chegar a um final que responda às questões desenvolvidas.
O problema de Ilha do Medo é pegar o atalho mais fácil, opção que estranha a um diretor como Scorsese, tão dedicado a contar uma história. Em vez de sugerir e desmentir, nos fazer acreditar e logo depois questionar, o roteiro de Laeta Kalogridis (Alexandre) articula uma história, nos faz acreditar complet Leia mais Martin Scorsese, sempre hábil em apontar a crueldade do ser humano sem deixar de manter as esperanças, aposta, em Ilha do Medo, na loucura e em como o sonho é o único jeito de se proteger do mundo real.
É um suspense em torno da procura do policial Teddy (Leonardo DiCaprio) por uma paciente perdida em um manicômio na Shutter Island. Se olharmos para trás em busca dos suspenses de alto nível, o que os une é a habilidade de acrescentar os elementos gradualmente na trama, criar as pontas de dúvida que nos mantenham interessados no filme, descobrir novas características dos personagens para, com tudo isso, chegar a um final que responda às questões desenvolvidas.
O problema de Ilha do Medo é pegar o atalho mais fácil, opção que estranha a um diretor como Scorsese, tão dedicado a contar uma história. Em vez de sugerir e desmentir, nos fazer acreditar e logo depois questionar, o roteiro de Laeta Kalogridis (Alexandre) articula uma história, nos faz acreditar completamente para, no final, desmenti-la por inteiro.
Só faltou Scorsese sair detrás das câmeras para dizer “olha só, trouxa, como te peguei! Pegadinha do Malandro!”. Não é necessariamente um problema enganar um espectador, mas, para um craque do cinema como ele é, esperamos mais do que um filme-pegadinha.
Num suspense, as dúvidas surgem ao longo do caminho. Nós seguimos uma leitura, depois embarcamos em outra, descobrimos que a primeira estava errada, aí surge uma virada que traz novo entendimento e o caminho começa a afunilar até desembocar no final. Mas Ilha do Medo prefere pular a dificuldade em construir uma história com mais entroncamentos e criar apenas uma grande surpresa. Afinal, é mais fácil fazer só uma virada em vez de várias pequenas mudanças de rumo, né?
Claro que, no meio do caminho, Scorsese mostra como, mesmo em situações triviais, ainda pensa com carinho os movimentos de câmera, a direção de atores e de arte. Existem boas sequências de tensão dentro do manicômio e outras passagens bregas e bonitas que revelam os sonhos assustadores de Teddy.
O diretor escalou um ótimo elenco para sustentar a trama. Leonardo DiCaprio, o protagonista, é correto; Mark Ruffalo, o policial parceiro, faz uma caracterização interessante; Patricia Clarckson tem uma iluminada e rápida participação; os veteranos Ben Kingsley e Max von Sydow são soberanos como vilões.
Também fica como mensagem a complexidade dos atalhos da mente humana ao lidar com um trauma e como somos hábeis em criar uma mentira fácil de acreditar. Sem contar que Scorsese filma bem, o que não é tão fácil de achar por aí.
Agora, Ilha do Medo está a léguas de ser um grande filme, especialmente porque o roteiro pega o caminho mais fácil entre os filmes de suspense: enganar em vez de pôr em dúvida.
Fonte: Cineclick - Heitor Augusto
“Pull yourself together (Controle-se)” ordena para si mesmo o policial federal e veterano da 2ª Guerra Teddy Daniels (Leonardo DiCaprio), diante do espelho em sua cabine de barco, enquanto lá fora o mar revolve no prenúncio de tempestade. Ele será o narrador nada confiável deste thriller psicológico, que mistura horror gótico (cemitério, mausoléu, farol, prisões assustadoras) com noir de mistério detetivesco (quem matou?). A sua narrativa entremeia-se de flashbacks e cenas delirantes, em tintas barrocas, de modo que o espectador é levado a desconfiar sobre o que de fato está acontecendo. Da mesma forma que a mente de Daniels/DiCaprio, o tempo convulsiona-se com furacões de alta magnitude, que fustigam a ilha-manicômio (do protagonista), sob efeitos sonoros dissonantes e furiosos.
Ambientado em 1954, o clima de loucura circular reverbera a atmosfera paranóica do início da Guerra Fria, quando os Estados Unidos foram assolados pela caça às bruxas do macartismo Leia mais “Pull yourself together (Controle-se)” ordena para si mesmo o policial federal e veterano da 2ª Guerra Teddy Daniels (Leonardo DiCaprio), diante do espelho em sua cabine de barco, enquanto lá fora o mar revolve no prenúncio de tempestade. Ele será o narrador nada confiável deste thriller psicológico, que mistura horror gótico (cemitério, mausoléu, farol, prisões assustadoras) com noir de mistério detetivesco (quem matou?). A sua narrativa entremeia-se de flashbacks e cenas delirantes, em tintas barrocas, de modo que o espectador é levado a desconfiar sobre o que de fato está acontecendo. Da mesma forma que a mente de Daniels/DiCaprio, o tempo convulsiona-se com furacões de alta magnitude, que fustigam a ilha-manicômio (do protagonista), sob efeitos sonoros dissonantes e furiosos.
Ambientado em 1954, o clima de loucura circular reverbera a atmosfera paranóica do início da Guerra Fria, quando os Estados Unidos foram assolados pela caça às bruxas do macartismo – a perseguição sistemática de intelectuais e artistas supostamente associados com as idéias socialistas e a União Soviética. Tempos da aparição das bombas de hidrogênio e de experimentos médicos secretos, quando a imagem do “complexo industrial-militar” assombrava a esquerda intelectualizada e alimentava sofisticadas teorias conspiratórias, tão bem captadas pelo cinema da época. Tudo isso matiza o enredo apresentado por Daniels/DiCaprio, cuja vivência traumática na libertação de um campo de concentração não pode deixar que ele admita laboratórios à Menghelle em território norte-americano. Movido pela ética salvadora, mas também por um passado recalcado em off, ele se põe a investigar o que o governo anda fazendo de verdade com os pacientes da prisão-hospício de “Shutter Island”. O desfecho, nada imprevisível, revela a realidade por trás da narração, fazendo o espectador ponderar retrospectivamente sobre o que percebeu do filme (e principalmente o que deixou passar!).
Incomoda neste último Scorsese não a mélange de referências a gêneros e filmes B, habilmente manejados pelo experiente diretor, mas o excesso de estilização. Os delírios-lembranças pintam-se de cores berrantes, numa iconografia exagerada onde diversos elementos — papéis, água, cinzas — despencam nos planos. Resultam artificiais as alucinações de ratos, fantasmas e criaturas, e mesmo as seqüências do holocausto e suas pilhas de incontáveis cadáveres desfigurados passam longe do verdadeiro terror implicado na situação. Compare-se com Noite e neblina (Resnais, 1955), no qual precisamente a falta de estilização aprofunda o horror das imagens. Com tudo isso, em Ilha do Medo, quebra-se o ritmo de tensão, enfraquecendo o noir-psicológico em favor dos efeitos de superfície de um horror mais visual e impactante, o que empobrece o suspense e o drama dos personagens.
Fonte: Pipoca Combo Adoro Cinema - Roberto Cunha
O que um bom filme de suspense precisa ter? Ação? Nem tanto. Um bom elenco? Ajuda. Roteiro e direção de qualidade? Certamente. As perguntas e respostas anteriores sintetizam o que é Ilha do Medo, filme estrelado por Leonardo DiCaprio apoiado por um elenco competente, multinacional e muito luxuoso.
A abertura simples acompanhada dos acordes iniciais de uma trilha absolutamente memorável já deixa o espectador com a impressão que está diante de um filmão. O que pode ser comprovado logo em seguida na apresentação magistral (visual e falada) de onde vai se desenrolar a trama. É quase impossível não ser pego nestes primeiros minutos e este é o grande barato da história: gerar envolvimento.
Di Caprio vive um agente federal atormentado pelo passado diante de uma trama psicológica que vai envolver você do começo ao fim, fazendo lembrar os bons filmes de mestres do gênero, do qual Martin Scorsese não faz parte, mas poderia porque cumpriu a missão com maestria.
Leia mais O que um bom filme de suspense precisa ter? Ação? Nem tanto. Um bom elenco? Ajuda. Roteiro e direção de qualidade? Certamente. As perguntas e respostas anteriores sintetizam o que é Ilha do Medo, filme estrelado por Leonardo DiCaprio apoiado por um elenco competente, multinacional e muito luxuoso.
A abertura simples acompanhada dos acordes iniciais de uma trilha absolutamente memorável já deixa o espectador com a impressão que está diante de um filmão. O que pode ser comprovado logo em seguida na apresentação magistral (visual e falada) de onde vai se desenrolar a trama. É quase impossível não ser pego nestes primeiros minutos e este é o grande barato da história: gerar envolvimento.
Di Caprio vive um agente federal atormentado pelo passado diante de uma trama psicológica que vai envolver você do começo ao fim, fazendo lembrar os bons filmes de mestres do gênero, do qual Martin Scorsese não faz parte, mas poderia porque cumpriu a missão com maestria.
Ilha do Medo entra para o rol dos suspenses de qualidade realizado por alguém que tem hábito de andar por outras praias, mas quando se aproxima do mar com fez em Cabo do Medo, parece se sentir a vontade e consegue resultados de tirar o fôlego.
Repleto de referências cinematográficas e históricas (visuais e auditivas), o longa faz jus ao título que ganhou no Brasil e assusta, crescendo minuto a minuto. Quem gosta de tramas complicadas (não complexas) com enigmas, anagramas, traumas, alucinações e, claro , cenas impactantes, vigorosas e, algumas, que beiram um surrealismo de tirar o chapéu, não perde por esperar.
O visual bem elaborado em todos os ambientes do filme, externos e internos, faz com que eles atuem junto com os atores e o resultado é impressionante...impactante...insano. Bem vindo à Ilha do Medo.
Fonte: Adoro Cinema - Roberto Cunha
Extra
13,500