Cine Players - G. Euzebio
Com roteiro amarrado às convenções, a história de Bad Blake (Jeff Bridges), o cantor country e decadente de Coração Louco, já foi filmada algumas vezes e em pelo menos uma delas, a mais recente, um esquecido ator interpreta um boxeador caindo pelas tabelas. É difícil não comparar o projeto deste filme ao de O Lutador, dirigido por Darren Aronofsky. Está quase tudo ali: o homem talentoso, porém esquecido e solitário que é rejeitado pela família e pensa estar diante de uma nova motivação para vida ao cruzar o caminho de uma bela mulher cujo passado de erros não é lá muito diferente do seu. Dois lutadores e seus corações enlouquecidos.
A grande diferença aqui reside justamente no peso das interpretações: enquanto Mickey Rourke tinha a seu favor aquela simpatia que dedicamos aos vencidos, justamente por identificarmos personagem e ator como a mesma persona, Jeff Bridges se apóia em seu grande talento para compor o derrotado músico, equilibrando os deslizes do Leia mais Com roteiro amarrado às convenções, a história de Bad Blake (Jeff Bridges), o cantor country e decadente de Coração Louco, já foi filmada algumas vezes e em pelo menos uma delas, a mais recente, um esquecido ator interpreta um boxeador caindo pelas tabelas. É difícil não comparar o projeto deste filme ao de O Lutador, dirigido por Darren Aronofsky. Está quase tudo ali: o homem talentoso, porém esquecido e solitário que é rejeitado pela família e pensa estar diante de uma nova motivação para vida ao cruzar o caminho de uma bela mulher cujo passado de erros não é lá muito diferente do seu. Dois lutadores e seus corações enlouquecidos.
A grande diferença aqui reside justamente no peso das interpretações: enquanto Mickey Rourke tinha a seu favor aquela simpatia que dedicamos aos vencidos, justamente por identificarmos personagem e ator como a mesma persona, Jeff Bridges se apóia em seu grande talento para compor o derrotado músico, equilibrando os deslizes do filme com a mesma destreza que seu personagem descansa o copo de uísque na barriga.
Estreando na direção e já acumulando também a função de roteirista, está Scott Cooper que já começa com pé direito com Coração Louco indicado em três categorias no Oscar 2010 (Melhor Ator, Melhor Atriz Coadjuvante – Maggie Gyllenhaal – e Melhor Canção) e vencedor de dois Globos de Ouro, um para a canção e outro para Jeff Bridges.
Nós chegamos à vida do músico e compositor Bad Blake quando ele sai numa turnê nada glamurosa por espeluncas, barzinhos e boliches de beira de estrada. Entre uma groupie de meia idade e outra garrafa de uísque, ele segue solitário, cruzando o país em sua caminhote velha até esbarrar na jornalista Jean Craddock (Maggie Gyllenhaal).
E aqui vale uma notinha pessoal e engraçada: a chegada de Jean ao quarto de Blake, que tem como motivo uma entrevista marcada às escuras, é um momento esperado e ocorre depois de uns bons vinte minutos de filme, quando já estamos a par da vida do personagem. Na cena ela vem abrindo a porta devagar, e por um momento pensei que veria o rosto de Marisa Tomei. Entrevistadora e entrevistado se envolvem e a cena do primeiro encontro entre eles é bem interessante pois descontrói a imagem do mito Bad Blake mostrando muitas de suas fragilidades. Bridges brilha, largado no sofá com a camisa desabotoada, deixando a barriga de fora enquanto articula um jantar complicado: filé com fritas, um cigarro e mais um copo de uísque.
Blake começa a apostar e vai entrando na vida de Jean e de seu filho, sem deixar de ser ele mesmo. A inspiração vem voltando aos poucos, e dois complicativos da trama entram em cena para perturbar o romance do casal: a menção de um filho que o cantor não vẽ há 24 anos e o retorno de seu ex-parceiro de banda e pupilo, Tommy Sweet (Colin Farrell), que neste momento possui uma carreira em tudo oposta a de Bad: popular, moderno e reconhecido, Tommy parece um canalha, maslogo demonstra suas boas intenções com o velho mestre. A conversa dos dois atrás da caminhonete velha de guerra traz um discurso sincero sobre como se movimenta a industria da música. Aí selemos a parceria com Blake e nos enterramos até às botas em sua vida.
O tom "coração-partido" é anunciado de longe e o clima de redenção que o filme vai tomando do meio pro fim deixa tudo com cara de mais do mesmo, e só as apresentações ao vivo e a inspirada trilha sonora são capazes de nos segurar na cadeira. Destaque para a apresentação da canção Somebody Else em que Jeff Bridges marca mais pontos em sua atuação: além da boa caracterização é ele quem canta as músicas de Blake. Outra cena de destaque mostra o músico na poltrona de sua casa de aspecto abandonado, brincando com o violão enquanto compõe uma canção sobre um homem destruído que não combina com a ambientação tranquila e caseira do amor.
O papel de Maggie Gyllenhaal incomoda um pouco, não por culpa da interpretação, e sim por um roteiro que não ajuda na identificação de seu personagem com a realidade. A participação e o sotaque caipira de Robert Duvall que interpreta Wayne, o grande amigo de Blake, é a cereja no bolo do filme.
Embalado pelas canções e os riffs da guitarra country de Bad Blake, a história equilibra seus clichês e vai deixar marcado mais um grande papel para Jeff Bridges, the big dude!
Fonte: Cine Players - G. Euzebio Cineclick - Celso Sabadin
Uma das primeiras cenas de Coração Louco já dá o tom do filme: o plano geral de uma estrada mostra vários carros indo numa determinada direção, enquanto uma velha camionete transita, solitariamente, no sentido oposto. Quem a dirige é Bad Blake (mais uma ótima interpretação de Jeff Bridges), cantor country decadente que ganha a vida se apresentando em espeluncas pelo interior dos Estados Unidos. É um personagem fascinante, eternamente na contramão, um outsider solitário perdido em tempos de consumismo fácil. Na linguagem popular, é o tipo do sujeito que foi para Woodstock a pé e está voltando agora. Um legítimo representante da cultura sexo, drogas... e música caipira.
É ele o portador do “coração louco” do título, um sujeito fiel aos seus princípios (seja lá quais forem), sedutor o suficiente para encantar seus velhos fãs mesmo embriagado até a tampa, e romântico o bastante para se apaixonar loucamente. E é o que ele faz: ao conhecer a jornalista Je Leia mais Uma das primeiras cenas de Coração Louco já dá o tom do filme: o plano geral de uma estrada mostra vários carros indo numa determinada direção, enquanto uma velha camionete transita, solitariamente, no sentido oposto. Quem a dirige é Bad Blake (mais uma ótima interpretação de Jeff Bridges), cantor country decadente que ganha a vida se apresentando em espeluncas pelo interior dos Estados Unidos. É um personagem fascinante, eternamente na contramão, um outsider solitário perdido em tempos de consumismo fácil. Na linguagem popular, é o tipo do sujeito que foi para Woodstock a pé e está voltando agora. Um legítimo representante da cultura sexo, drogas... e música caipira.
É ele o portador do “coração louco” do título, um sujeito fiel aos seus princípios (seja lá quais forem), sedutor o suficiente para encantar seus velhos fãs mesmo embriagado até a tampa, e romântico o bastante para se apaixonar loucamente. E é o que ele faz: ao conhecer a jornalista Jean (Maggie Gyllenhaal, ótima como sempre), Bad Blake se entrega a este novo amor com a impulsividade daqueles que vivem um dia de cada vez. Ao contrário dela, mulher calejada pela vida, mãe de um garotinho, e - não sem razões - com todos os pés atrás.
É - também - em cima desta dicotomia que o diretor e co-roteirista Scott Cooper (mais conhecido como ator, estreando agora na direção) monta este autêntico e sensível road movie country todo filmado pelo empoeirado sul norte-americano.
Além da temática romântica, há ainda uma atraente sub-trama musical e empresarial que contrapõe o veterano Blake com o jovem astro Tommy Sweet (Colin Farrell). Antítese de Blake, Tommy é o retrato do novo sertanejo que deu certo, com seus shows de produção mirabolante e gigantescos caminhões de produção. Ironicamente, porém, Tommy precisa de Blake para compor novas canções, posto que os novos compositores não o satisfazem. Significativo: o gigantismo das mega produções mercadológicas se vê obrigado a recorrer a um velho e solitário “coração louco” para suprir a poderosa indústria com aquilo que ela mais necessita para sobreviver: a paixão das composições country.
No final das contas (não, não vamos contar o final do filme), percebe-se que Bad Blake fez de sua própria vida uma gigantesca música country: chorosa, repleta de dor de cotovelo, sentida, doída, sentimental... mas profundamente bela e tocante. Como este belo e tocante filme que vem colecionando vários prêmios e indicações.
Fonte: Cineclick - Celso Sabadin Pipoca Combo - E. Carneiro
À primeira vista, Coração Louco (Crazy Heart) pode parecer ser apenas um veiculo para Jeff Bridges brilhar novamente. O ator é mais que favorito a levar a estatueta de melhor ator no Oscar deste domingo, fazendo justiça não só a esse trabalho como a sua ótima carreira, visto que já tinha sido indicado outras quatro vezes para receber o prêmio. O ator é considerado pelos sites de apostas, junto com o filme A Fita Branca (em Melhor Filme Estrangeiro), como uma das duas barbadas do Oscar. E dificilmente deve perder essa disputa, já que todo mundo sabe que a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood costuma não premiar apenas uma atuação individual, e sim fazer justiça a carreiras vitoriosas.
Voltando à frase inicial do texto, tanto o filme quanto o papel principal parecem ser feitos por encomenda para concorrem ao Oscar. O cinema americano adora historias de redenção e, levando em conta os concorrentes e vencedores dos últimos anos, não é nenhum Leia mais À primeira vista, Coração Louco (Crazy Heart) pode parecer ser apenas um veiculo para Jeff Bridges brilhar novamente. O ator é mais que favorito a levar a estatueta de melhor ator no Oscar deste domingo, fazendo justiça não só a esse trabalho como a sua ótima carreira, visto que já tinha sido indicado outras quatro vezes para receber o prêmio. O ator é considerado pelos sites de apostas, junto com o filme A Fita Branca (em Melhor Filme Estrangeiro), como uma das duas barbadas do Oscar. E dificilmente deve perder essa disputa, já que todo mundo sabe que a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood costuma não premiar apenas uma atuação individual, e sim fazer justiça a carreiras vitoriosas.
Voltando à frase inicial do texto, tanto o filme quanto o papel principal parecem ser feitos por encomenda para concorrem ao Oscar. O cinema americano adora historias de redenção e, levando em conta os concorrentes e vencedores dos últimos anos, não é nenhum espanto o sucesso do filme e da atuação de Jeff Bridges. Porém, quem tiver bons olhos, talvez possa enxergar um pouco além do previsível, já que esse é um filme de detalhes. Tanto no personagem principal quanto nas situações, são eles que fazem a diferença.
A trama do filme é centrada em Bad Blake (Bridges). Bad é um cantor country que fez muito sucesso no passado, mas hoje é apenas alguém solitário e alcoólatra que roda sozinho os EUA, em um carro antigo, fazendo shows em pequenos espaços e recebendo muito pouco por isso. Bad se sujeita a isso por dois motivos: 1- ele vive disso e tem contas a pagar. 2- ele ainda sonha em voltar ao topo. Em uma dessas viagens, Bad conhece a jornalista Jean (Maggie Gyllenhaal) por quem se apaixona e começa um relacionamento. Obviamente, durante o relacionamento, aparecem os problemas de alcoolismo e ela se fecha pelo fato de ter um filho pequeno e ser recém separada.
Daí o pode-se notar que essa é mais uma historia como milhares que o cinema conta todo ano. Sem voltar muito ao passado, quem não se lembra de Joaquin Phoenix e seu Johnny Cash que sofria de problemas com a família, drogas e solidão? E do Jamie Foxx e seu Ray Charles que também sofria de problemas com a família, drogas e solidão? E voltando ao ano passado, como se esquecer do Mickey Rourke e seu Randy, o carneiro. Novamente: família, drogas e solidão? Três filmes com a mesma temática, com praticamente o mesmo papel e com o mesmo sucesso. Porém, nada mais justo que lembrar que as histórias são sempre as mesmas. O que as torna grandes, é a forma como elas são contadas. E, assim como todos os anteriormente citados – grandes filmes -, Um Coração Louco pode até não chegar lá, mas mira no mesmo alvo.
Logo na primeira cena, quando Bad conversa com seu empresário, ficamos sabendo que o cantor não compõe uma musica há muito tempo e, a se notar, essa é a grande questão do filme. Por que Bad não consegue mais compor? Por que Bad se tornou um artista incapaz de criar arte? Esta incapacidade não está ligada ao alcoolismo, visto que em uma cena ele consegue criar em companhia de um copo de uísque na mão. O problema não está na solidão, logo que em outro momento ele o faz acompanhado de sua própria respiração em sua casa, no auge do isolamento, seja ele qual for. Tampouco o problema reside na falta de vontade, o que tem de sobra para sustentar a necessidade de novas vendeas e retorno ao estrelato.
Não intencional, o filme acada por ser piegas. Bad consegue compor quando parece ter achado a felicidade, mas mesmo quando volta a estar solitário, continua compondo e feliz. Nesse ponto, Um Coração Louco deixa bem claro a idéia de que a felicidade do artista está no que ele faz. É ela quem o transforma nisto. Ao mesmo tempo em que o artista cria a arte, a arte cria o artista, não sendo uma via de mão dupla, mas sim o mesmo movimento. A contar com isso, em nenhum momento o filme é escuro, é sempre um filme claro, com fotografia aberta onde a luz entra, demarcando bem que o sofrimento do cantor está longe de ser pela vida que leva.
Bad talvez se livre do álcool como Ray, está longe de ter um amor para toda a vida com como Johnny Cash teve com June Carter; e, assim como o Randy, continua lutando para dar a volta por cima ao mesmo tempo em que luta pela sobrevivência. Mas, com certeza, a sua história encontra ecos em Daigo Kobayashi (do ótimo A Partida, vencedor do Oscar de filme estrangeiro de 2009) onde a música não só é reflexo da sua felicidade como é a sua própria felicidade, coisa com a qual o músico não pode viver sem.
Fonte: Pipoca Combo - E. Carneiro
Cinegrafista
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