Brasil CineZen Cultural - André Azenha Antes de tudo, considero importante informar o leitor que eu sou adepto da doutrina espírita.
Transformar a vida de alguém que fez bem e ajudou tanta gente, mas que teve sua imagem ligada a uma doutrina que não tem o apelo do catolicismo, nem possui o fanatismo da religião evangélica, num país como o Brasil, de tantas disparidades sociais, s ... Leia mais Antes de tudo, considero importante informar o leitor que eu sou adepto da doutrina espírita.
Transformar a vida de alguém que fez bem e ajudou tanta gente, mas que teve sua imagem ligada a uma doutrina que não tem o apelo do catolicismo, nem possui o fanatismo da religião evangélica, num país como o Brasil, de tantas disparidades sociais, seria um risco tremendo.
Em âmbito comercial, o “bem”, no cinema, muitas vezes é encarado como brega e não atrai o mesmo público como cinebiografias de figuras controversas, bandidos, artistas maluquetes ou políticos. No campo religioso, sempre há o risco da polêmica e as carolas de plantão que atiram pedras em meio à nuvem de hipocrisia. Mas o diretor Daniel Filho, ateu, não deu bola e levou em frente o projeto de filmar a trajetória de Francisco Cândido Xavier, ou Chico Xavier, o mais famoso médium brasileiro, que faria 100 anos em 2010.
Autor de mais de 450 livros, Chico nasceu no interior de Minas Gerais, em 1910, jamais se considerou um autor e nem fez uso de direitos autorais, convertendo todo o dinheiro arrecadado com a venda dessas obras para entidades de caridade. Faleceu aos 92 anos, em 30 de junho de 2002, horas após a seleção brasileira de futebol ser pentacampeã mundial.
E foi o centro de uma decisão inédita nos tribunais brasileiros. A família de um jovem morto por um tiro retirou a acusação contra o garoto acusado, depois de ler uma carta psicografada pelo médium e assinada pela vítima do crime. A arma teria disparado sem querer e os jurados decidiram pela absolvição do réu. Quer um fato mais cinematográfico que isso?
Baseado no livro “As Vidas de Chico Xavier”, do jornalista Marcel Souto Maior, o roteiro de Marcos Bernstein (“Central do Brasil”, “Zuzu Angel”, entre outros), parte da participação de Chico no antigo programa Pinga Fogo, da extinta TV Tupi, para alternar as cenas da entrevista com a vida do protagonista.
Assim, em “Chico Xavier – O Filme”, presenciamos sua infância pobre, quando ele começou a ver espíritos (entre eles a falecida mãe, que o ajudava espiritualmente) e precisou enfrentar a incompreensão de colegas de escola, familiares e cidadãos locais, até seu encontro com Emanuel, seu guia espiritual, e outros episódios como o do tribunal, a viagem (engraçada) de avião que passou por turbulência, etc. Tudo bem narrado, sem cair para o melodrama nem tentando dar à figura central um tom messiânico. De forma inteligente, o filme tem momentos de comédia, trazendo o personagem central para junto do espectador.
Tecnicamente o longa é correto. Desde a reprodução do início do século passado no interior mineiro até a concepção do programa Pinga Fogo. Mas é o elenco o grande trunfo da obra cinematográfica. Os três atores que encarnam as diferentes fases na vida de Chico Xavier correspondem à complexidade que o papel exige.
Mateus Costa na infância, Ângelo Antônio na juventude (comprovando ser um dos melhores atores do cinema nacional, com outra grande atuação após “2 Filhos de Francisco”) e Nelson Xavier. Este último parece (desculpem o clichê) ter encarnado Chico Xavier, tamanha a intensidade com que incorpora os trejeitos, a fala e o físico do médium.
Os outros atores também têm momentos marcantes. Tony Ramos, que trabalhou com o diretor Daniel Filho na franquia “Se Eu Fosse Você”, tem um depoimento emocionante como o pai ateu que dirige o Pinga Fogo e teve um filho morto que lhe escreve uma carta psicografada por Chico; Christiane Torloni, que faz a esposa esperançosa de Tony; Letícia Sabatella, a mãe de Chico Xavier; Giovanna Antonelli, como a mulher que ajuda a criá-lo e acredita na mediunidade do garoto; Cássia Kiss, mãe do garoto julgado pela morte do filho de Tony e Christiane; Luis Melo, intenso ao viver o pai de Chico; Paulo Goulart na pele do apresentador de TV. Todos esses catalisam a atenção do espectador quando estão em cena. Apenas Giulia Gam, que interpreta a madrinha de Chico, soa exagerada.
Independente de crença, religião, etc, “Chico Xavier – O Filme” é uma história inspiradora, uma justa homenagem a alguém que atraiu a admiração e a fé do público sem precisar pedir contribuições financeiras e nem utilizar construções banhadas a ouro para gerar conforto espiritual. E também serve para nos colocar em nosso verdadeiro lugar.
Há quem possa esperar uma catarse ao final do longa. Um momento de êxtase. Mas Chico foi, por mais paradoxal que possa parecer, um ser bastante evoluído sim, mas ao mesmo tempo, uma pessoa extremamente simples. E Daniel soube encerrar a trama no tom certo.
Já as carolas podem reclamar, mas ao menos pelo exemplo que eu tive na sala de projeção a qual compareci nesta Sexta-Feira Santa, o filme tem tudo para ser sucesso de público, atraindo, além dos espíritas, católicos, evangélicos, ateus, etc.
Fonte: CineZen Cultural - André Azenha
Excelente