Cineclick - Ana Martinelli
Quando Tim Burton (Sweeney Todd: O Barbeiro Demoníaco da Rua Fleet) e a Disney anunciaram que fariam uma nova versão Alice no País das Maravilhas as expectativas foram às alturas e cada nova informação sobre a produção era tão aguardada quanto preciosa.
Os motivos não são poucos: eu não conseguiria sugerir um nome mais adequado para a empreitada. O “estranho” modo de interpretar o mundo para uns e genial para outros, de Tim Burton, me parece ser o ideal para penetrar, traduzir e expressar a fantasia criada por Lewis Carroll, em Alice no País das Maravilhas e Através do Espelho e o que Alice Encontrou Lá.
Após ver o filme, fica ainda mais difícil separar a visão peculiar de mundo e estética do diretor, aliada ao uso correto de toda a tecnologia disponível, do espetáculo visual. Para o espectador, Alice é uma experiência sensorial fantástica.
Mas, que fique bem claro, este Alice no País das Maravilhas é a visão de Tim Burton, inspirada nos dois livr Leia mais Quando Tim Burton (Sweeney Todd: O Barbeiro Demoníaco da Rua Fleet) e a Disney anunciaram que fariam uma nova versão Alice no País das Maravilhas as expectativas foram às alturas e cada nova informação sobre a produção era tão aguardada quanto preciosa.
Os motivos não são poucos: eu não conseguiria sugerir um nome mais adequado para a empreitada. O “estranho” modo de interpretar o mundo para uns e genial para outros, de Tim Burton, me parece ser o ideal para penetrar, traduzir e expressar a fantasia criada por Lewis Carroll, em Alice no País das Maravilhas e Através do Espelho e o que Alice Encontrou Lá.
Após ver o filme, fica ainda mais difícil separar a visão peculiar de mundo e estética do diretor, aliada ao uso correto de toda a tecnologia disponível, do espetáculo visual. Para o espectador, Alice é uma experiência sensorial fantástica.
Mas, que fique bem claro, este Alice no País das Maravilhas é a visão de Tim Burton, inspirada nos dois livros nos quais se baseia. Porém, não é um, nem outro. O longa conta uma terceira história. Pode parecer um pouco confuso porque o nome é o mesmo. O roteiro começa por esclarecer que Alice já não é mais aquela pequenina de sete anos e meio de idade. Aos 19 anos, Alice (Mia Wasikowska) não vê a menor graça nas obrigações e no modo como deveria se comportar no mundo aristocrático em que vive. A adolescente não entende a razão de sonhar sempre os mesmos sonhos todas as noites, desde criança.
Tal qual no começo de tudo, o coelho leva Alice para a toca e o início do que ela acredita ser um sonho, do qual a qualquer minuto irá acordar. Porém, os personagens e as histórias de Carroll se condensam às novas amarrações do roteiro de Linda Woolverton (O Rei Leão) para dar vida a esta nova narrativa. A Rainha Vermelha (Helena Bonham Carter) continua sendo uma carta insana do baralho, impiedosa e louca por cabeças cortadas. Os soldados fiéis da Rainha Branca (Anne Hathaway) são as mesmas peças do velho jogo de xadrez. E, apesar de nunca terem se encontrado na literatura, se enfrentarão na grande tela do cinema.
Tão importante quanto a própria protagonista é o papel do Chapeleiro Maluco (Johnny Depp). Fundamental na trama, ele é o primeiro a reconhecer que a garota de hoje é a mesma Alice de antes. Ele será seu companheiro nesta jornada e a ajudará a entender a dinâmica daquele estranho mundo e suas criaturas.
A opção por uma narrativa fundamentada na jornada do herói me faz pensar em duas coisas: primeiro, Alice é mais velha e está em um mundo em conflito, no qual o entendimento de sua essência aventureira é determinante para a redenção; além disso, quem nunca leu nenhum dos livros vai se divertir com uma grande aventura. Tudo isso tem mais apelo junto ao grande público.
Aí vem o segundo ponto: ao trilhar este caminho e ter êxito, o roteiro e a direção simplificaram a história e se perdeu justamente o caráter delicioso da obra de Lewis Carroll - a anarquia e o escárnio. Senti muita falta das canções e poesias. O Chapeleiro, num momento de muita seriedade e perigo iminente, recita um trecho de Jaguadarte, mas seu jogo de palavras e termos, brilhantemente escrito pelo autor, em 1871, para a segunda aventura de Alice e considerado um maiores poemas nonsense da literatura, ficam inexplicados. Os trocadilhos e piadas também ficam reduzidos para o entendimento do todo.
A literatura e o cinema são linguagens diferentes, seus signos, códigos e percepções são outros. Os dois são complexos e podem nos levar a muitos universos. Não estou questionando isto, só para esclarecer, muito menos prefiro um ao outro. A visão de Tim Burton e seu Alice no País das Maravilhas é um desbunde. Mas não traz a mesma inquietação do original, assim como, em minha opinião, nenhuma tentativa para o cinema o fez.
Faria muito mais sentido assumir o filme como o terceiro episódio da saga de Alice e chamá-lo de Alice in Underworld, como os próprios personagens se referem àquele lugar. A tradução para o português ficaria Alice no Mundo Subterrâneo, me parece honesta e justa.
Fonte: Cineclick - Ana Martinelli
Alice no País das Maravilhas só não é o grande filme que muitos gostariam porque o diretor Tim Burton nunca foi muito bom em narrar histórias. Seus filmes em geral têm roteiros ruins e a ação não é seu forte, mesmo que algumas obras, como Edward Mãos de Tesoura, as tramas sejam muito belas. Ao contar a superconhecida história de Alice, as cenas de ação não funcionam e o final, com Alice tendo de matar um monstro gigantesco, Jabberwocky, simplesmente não convence - mas, sinceramente, quem se importa?
Fora isso, é o que há de melhor neste que sem dúvida é um dos grandes diretores americanos da atualidade. Sua adaptação por vezes é genial, com os dois universos, o de Lewis Carroll e o de Tim Burton, unindo-se de maneira quase perfeita. Só não vá esperando os maneirismos, as facilidades, os reducionismos e os clichês de um James Cameron em Avatar ou mesmo o gótico anódino e asséptico da Hogwarts de Harry Potter. A Wonderland de Tim Burton não é aprazível Leia mais Alice no País das Maravilhas só não é o grande filme que muitos gostariam porque o diretor Tim Burton nunca foi muito bom em narrar histórias. Seus filmes em geral têm roteiros ruins e a ação não é seu forte, mesmo que algumas obras, como Edward Mãos de Tesoura, as tramas sejam muito belas. Ao contar a superconhecida história de Alice, as cenas de ação não funcionam e o final, com Alice tendo de matar um monstro gigantesco, Jabberwocky, simplesmente não convence - mas, sinceramente, quem se importa?
Fora isso, é o que há de melhor neste que sem dúvida é um dos grandes diretores americanos da atualidade. Sua adaptação por vezes é genial, com os dois universos, o de Lewis Carroll e o de Tim Burton, unindo-se de maneira quase perfeita. Só não vá esperando os maneirismos, as facilidades, os reducionismos e os clichês de um James Cameron em Avatar ou mesmo o gótico anódino e asséptico da Hogwarts de Harry Potter. A Wonderland de Tim Burton não é aprazível nem foi feita para agradar. Alice dificilmente encontrará lá um ambiente idílico e propício para a fuga : seus melhores amigos são seres para lá de bizarros, na maioria das vezes viciados. Caberá a Burton humanizá-los, e essa é uma das melhores coisas do filme.
Helena Boham Carter e o gato de Alice, Cheshire, são os maiores destaques. No caso do gato, é o melhor que o 3D trouxe ao filme. Tim Burton, desconfiado da nova tecnologia, não quis filmar com as famosas câmeras 3D de Avatar e Os Fantasmas de Scrooge (de Robert Zemeckis). Fez tudo no tradicional e depois convertou o resultado final. Talvez por isso por vezes a tecnologia atrapalha mais do que ajuda na narrativa e em muitos casos, bastante óbvia, incomoda. Nesse caso, a imersão de Avatar faz mais sentido: o 3D, pelo menos por enquanto, funciona melhor em filmes que envolvam lutas, explosões, guerras – o chamado "cinema físico", mas pode ser um insuperável instrumento nas mãos de um artista como Burton, e seu gato de Cheshire é a melhor prova disso.
Na adaptação, feita por Linda Woolverton, roteirista de A Bela e a Fera e O Rei Leão, a maior mudança é a idade da protagonista, agora com 19 anos. É um dos grandes acertos do filme, pois o livro é visto por muitos como cheio de insinuações à pedofilia (Lewis Carroll era fotógrafo e adorava registrar garotinhas). Esse tipo de peso poderia arruinar a obra. No resto, Tim Burton não mexeu e as muitas insinuações aos alucinógenos estão presentes, seja no fumacê que Absolum, a larva azul sábia (voz de Alan Rickman), solta sem parar, seja nas poções e chás esquisitissímos tomados pelos personagens.
Helena Boham Carter, com sua cabeçona (interpretava sempre para uma câmera especial para deformar sua figura), tem o melhor da animação, da computação gráfica e dos efeitos especiais em si e ao seu lado. Tim Burton, seu marido, com quem tem dois filhos, utilizou vários processos de animação, mesmo com massinha, para compor a aberrante corte da Rainha (mistura da Rainha de Copas, de As Aventuras de Alice nos País das Maravilhas, e a Rainha Vermelha, de Alice Através do Espelho, a continuação do primeiro livro – em ambos é baseada a história). Como Burton é um especialista na área, o resultado é por vezes avalassador.
Burton disse ter visto mais de 60 versões, entre filmes, seriados ou quadrinhos, de Alice nos seus 55 anos de vida. Reclama que a maioria não funcionou justamente por serem muito apegadas ao original e muito "literárias". Preferiu propositalmente apegar-se aos personagens e dar-lhes sua visão pessoal. Pode ser que a fraqueza do filme esteja aqui, ao não focar na narrativa, mas é com certeza um de seus pontos fortes também: a maneira como Burton apresenta todos, sempre compreensivo e interessado, mostrando as bizarrices sem nenhum constrangimento, como os mortos de A Noiva Cadáver, perfeitamente bem no que restou de suas peles. E Johnny Depp funciona, com seu misto de ternura e loucura, nesse processo de humanização.
Burton prefere os diferentes. Injeta neles uma carga de humanidade que os tira dos estereótipos. Neste Alice in Wonderland, dá contornos impensáveis seja até mesmo para a imaculada Rainha Branca (Anne Hathaway). Seus monstros têm coração, seus loucos, lucidez. Se a Rainha Vermelha é má é porque sofre de solidão e pelo fato de negar sua condição física. Os outros personagens não têm esse tipo de problema – riem de si próprios e suas limitações.
Como já notou parte da crítica, de todos os personagens, justamente Alice é que teve o desenvolvimento menos satisfatório. Em pânico por ter de se casar, Alice foge e mais uma vez cai na toca do coelho. Durante sua estadia em Wonderland (ou Underland), vai aprender conhecer a si própria, adquirir auto-confiança e enfim poder voltar à vida real preparada para o que a espera. É meio decepcionante sim, mas nunca simplista, pois Tim Burton se encarregou de fazer a transição com gentileza. Mas não é o melhor do filme, que está espalhada, seja na hipnótica direção de arte, seja na multidão de pequenos detalhes que tanto enriquecem seus filmes. O melhor de Tim Burton está nos detalhes.
Fonte: Cine Players - D. Caesar
É inegável. Nenhum filme de Tim Burton até então fora tão aguardado e comentado quanto Alice no País das Maravilhas. E a bilheteria comprova isso (mais de 800 milhões de dólares mundiais – e o filme nem estreou no Brasil). Ansiado, a maior superprodução do diretor é o título que faltava para fincá-lo na indústria como um grande ímã comercial. E, aplausos únicos para o próprio, é o resultado de um grande zelo pelo próprio trabalho, algo que Burton vem demonstrando ao longo de sua carreira.
Seria totalmente repetitivo tecer comentários sobre a filmografia de Burton, por dois motivos: o primeiro, e mais lógico, é a fama de condensador de estilos do diretor, o grande atrativo de suas produções que vem se reproduzindo e marcando presença nas suas obras. O segundo, menos perceptível para alguns, é o excesso de dissertações sobre os projetos já lançados de Tim, localizados nas introduções de seja lá qual for o texto sobre o novo lançamento da Walt Disn Leia mais É inegável. Nenhum filme de Tim Burton até então fora tão aguardado e comentado quanto Alice no País das Maravilhas. E a bilheteria comprova isso (mais de 800 milhões de dólares mundiais – e o filme nem estreou no Brasil). Ansiado, a maior superprodução do diretor é o título que faltava para fincá-lo na indústria como um grande ímã comercial. E, aplausos únicos para o próprio, é o resultado de um grande zelo pelo próprio trabalho, algo que Burton vem demonstrando ao longo de sua carreira.
Seria totalmente repetitivo tecer comentários sobre a filmografia de Burton, por dois motivos: o primeiro, e mais lógico, é a fama de condensador de estilos do diretor, o grande atrativo de suas produções que vem se reproduzindo e marcando presença nas suas obras. O segundo, menos perceptível para alguns, é o excesso de dissertações sobre os projetos já lançados de Tim, localizados nas introduções de seja lá qual for o texto sobre o novo lançamento da Walt Disney Pictures. No final, fala-se tanto do aspecto sombrio e divertido outrora exposto pelo artista em questão, que a pobre Alice, que muito pouco tem a ver com esse estilo, é esquecida ao canto.
Pais das Maravilhas, a versão atual, é uma produção atípica da Disney. Sim, o já mencionado sobre Tim Burton tem sua interferência nisto, mas não é o ponto chave. Pela primeira vez, o estúdio se permitiu ter o direito de entregar ao público um tipo de produção que ele se demonstra favorável a assistir – debutou, sim, mas nos termos em que Alice foi produzido. É evidente que o estúdio sabe agraciar a plateia. Não fosse por isso, as animações e mega espetáculos de pirotecnia, como Piratas do Caribe, não surtiriam efeito positivo em seus cofres; por mais distantes que essas produções estejam umas das outras, em termos de postura. Contudo, é com Alice no País das Maravilhas que há uma divisa de águas no padrão Disney de contar histórias. Nunca antes a casa do Mickey se deu ao trabalho de resgatar uma de suas clássicas fantasias infantis para transformá-la numa estrutura narrativa tal qual este longa é. O que significa que, ainda que isto se trate de uma adaptação de uma obra literária de conhecimento geral ao redor do globo, é à Disney que a imagem cinematográfica da menina de cabelos aloirados que resolve seguir o coelho branco é associada. E mexer com este tipo de ligação poderia vir a ser um problema.
O que chama mais atenção em Alice não é bem o filme em si, e sim algo que já tinha sido notado desde o anúncio do projeto: o estúdio quer, e precisa, atender a um público que cada vez menos se convence com um conto de fadas ou histórias voltadas apenas às crianças (e isto pode ser visto com extrema facilidade nos últimos trabalhos da Pixar). A escolha de direção e elenco já dava pistas da real intenção para com a produção, o que veio a ser certificado. Alice no País das Maravilhas não é um novo clássico do cinema, muito longe. Esta nem era, aliás, a ideia inicial (contrariando os dizeres do marketing). O filme é uma nova proposta; rica, interessantíssima, certeira, testada e perfeitamente aprovada. Agora, só resta acertar no filme.
A história começa quando a jovem Alice, agora com 17 anos, se vê diante da sua própria festa de noivado surpresa, exposta a um casamento indesejado e precoce. Desesperada com o que dizer no momento do “sim”, a adolescente avista um Coelho Branco que para ela só existia em seus repetitivos sonhos sobre um mundo maravilhoso. Decidida a segui-lo, Alice cai na toca do roedor, adentrando em “Underland” (ou “Mundo Subterrâneo”, numa proximidade sonora com o “Wonderland” que a jovem escutou errado quando menina, em sua primeira passagem). Agora Alice descobre que precisa terminar um trabalho que começou anos atrás, e retirar a coroa da Rainha Vermelha (uma mistura da Rainha de Copas com a própria Rainha Vermelha, de livros diferentes – adaptações à parte) e devolvê-la à Rainha Branca para repor a ordem e paz no lugar.
A trama tem sua coerência. Apesar de 0 título não corresponder à obra que deveria (Alice Através do Espelho e O Que Ela Encontrou Por Lá, uma espécie de continuação de n’O País das Maravilhas, ambos do mesmo autor – leia mais no nosso especial clicando aqui) e das inúmeras transformações a partir de tal livro que o originou, (que vão desde o seguimento da história até a caracterização visual e constituinte dos personagens), o roteiro percorre o filme sem furos perceptíveis aos desatentos. Os problemas estão no desenvolvimento de um estilo esperado, que reluta para se definir.
O tão comentado e vangloriado “ar Burton” de filmar não passa exatamente disto: uma postura para literalmente filmar. Trocando em miúdos, não evolui além do visual. A iluminação enfraquece, as cores fogem dos personagens amistosos e se mostram vivas e envolventes no palácio da Rainha Vermelha, em exageros que caem bem ao contexto de uma personagem que os valoriza, ao passo que enfatiza uma concentração de poder neste núcleo da trama. A cenografia e a direção de arte são ricas e disformes em certos desenhos, criando formações estranhas e, por ventura, bizarras, elaborando um universo ímpar que define uma atmosfera fantástica e assustadora. Um verdadeiro cuidado que ilustra minúcia e criatividade visual. Sem mais.
Não fosse por este espetáculo encorpado pelo ótimo 3D (feito em pós-produção, mas com uma qualidade extremamente elogiável por sua funcionalidade), não se encontraria ali a linguagem de Tim Burton. Os rumos das aventuras de Alice estão muito abaixo das surpresas que chocavam pelas tomadas repentinas em filmes anteriores do diretor, uma falha que aponta para um roteiro que mais se preocupou em recriar personagens o mais distantes possível dos livros (sem destoar, claramente) do que em inserir uma sucessão de fatos amarrados que vez ou outra testam o comportamento ameno. E nem mesmo os diálogos estão preparados para suprir esta problemática.
Tecnicamente, o filme também vacila quando menos deveria. Sustentados por um excelente desenho de produção, os efeitos visuais ficaram degraus muito abaixo de um patamar de convencimento. Todo e qualquer animal falante é tão artificial e plástico que, sob a lente do 3D, perde o carisma que deveria ter, dando mais sorte na fluência com que fala ou anda do que quando protagoniza movimentos bruscos e, ainda pior, na própria qualidade gráfica, iluminando os olhos para os que apontam para um legítimo produto de processadores de máquinas não tão potentes. Ao menos a interação entre os atores reais e os cenários virtuais funciona.
Mas há bastante para se apreciar, e isto não fica nas costas de Johnny Depp, por mais que isso possa causar contenda. Acostumado com personagens cada vez mais caricatos, não há mais espaço para que o ator inove ou se funda àquilo que está interpretando, o que para alguns pode significar redundância. Em contrapartida, Helena Bonham Carter é o verdadeiro significado de uma entrega ao personagem. A sua Rainha Vermelha é impecável tamanho seu ar maligno e adorável, prazerosos em comunhão na tela, fazendo do longa o palco para o seu próprio espetáculo. Anne Hathaway, ou A Rainha Branca, é segura em seus trejeitos previamente caricaturados, num elo cômico e gracioso que fazem de sua interpretação única, mesmo com pouco tempo de ação. Sem mencionar o ótimo Matt Lucas, que atingiu o ponto certeiro com os gêmeos Tweedledee e Tweedledum, administrando mesmo sob inúmeras camadas de computação a prática e a facilidade em se expressar corretamente com a temática do momento.
Alice no País das Maravilhas nada mais é do que uma propaganda, um mostruário e, também, um conformismo por parte de uma produtora que sempre se voltou para uma apresentação “formal e correta” de suas histórias. Diante de uma iniciativa como esta, que já mostrou ser competente e muito benvinda, os erros e descuidos de uma produção não vão passar de meros tropeços (ou inseguranças) de um momento que está começando agora – tardio, mas começando. Esperemos que Alice seja só um convite para agora nos deliciarmos com uma ótima vertente dentro de um estúdio que já provou ditar padrões dentro de um gênero no cinema. E um gênero inteiro é, sim, muita coisa. Que a fantasia, mesmo que meio torta, continue assim. Que venha Malévola.
Fonte: Pipoca Combo - A. Melo Omelete.com - Marcelo Forlani
No dia 1º de março, alguns dias antes da estreia de Alice no País das Maravilhas nos cinemas dos Estados Unidos, o site College Humor postou um vídeo que parodiava o "processo criativo" de Tim Burton. Ele estava preparando um novo filme para o estúdio, e não seria um roteiro original, mas sim uma revisão de algo que já era sombrio, tornando ainda mais sombrio. A trilha sonora seria mais uma vez feita por Danny Elfman, que já até balbuciava as notas. Pessoas seriam pintadas de branco vestindo roupas listradas ou de tecidos escuros. E Johnny Depp e Helena Bonham Carter logicamente estariam no elenco.
A brincadeira não podia vir em melhor hora. Parece que Burton, uma das mentes mais criativas de Hollywood, foi dominado pelo seu ego, abriu uma vala para deixar escorrer os novos pensamentos que antes inundavam sua mente e partiu para a solidificação do "Burtonverse", em que ele pega tudo o que já existe hoje e impõe a sua versão, que é mais sombria, tem trilha sonora do Leia mais No dia 1º de março, alguns dias antes da estreia de Alice no País das Maravilhas nos cinemas dos Estados Unidos, o site College Humor postou um vídeo que parodiava o "processo criativo" de Tim Burton. Ele estava preparando um novo filme para o estúdio, e não seria um roteiro original, mas sim uma revisão de algo que já era sombrio, tornando ainda mais sombrio. A trilha sonora seria mais uma vez feita por Danny Elfman, que já até balbuciava as notas. Pessoas seriam pintadas de branco vestindo roupas listradas ou de tecidos escuros. E Johnny Depp e Helena Bonham Carter logicamente estariam no elenco.
A brincadeira não podia vir em melhor hora. Parece que Burton, uma das mentes mais criativas de Hollywood, foi dominado pelo seu ego, abriu uma vala para deixar escorrer os novos pensamentos que antes inundavam sua mente e partiu para a solidificação do "Burtonverse", em que ele pega tudo o que já existe hoje e impõe a sua versão, que é mais sombria, tem trilha sonora do Danny Elfman etc. Foi assim com A Fantástica Fábrica de Chocolate, Planeta dos Macacos, A Lenda do Cavaleiro Sem Cabeça e é assim com Alice no País das Maravilhas.
A história adapta contos e poemas escritos por Lewis Carroll e monta um cenário interessante: Alice (Mia Wasikowska), aos 19 anos, vai a uma festa e descobre que está prestes a ser pedida em casamento perante centenas de socialites. Ela então pede um tempo para pensar e deixa todo mundo com cara de interrogação. Enquanto corre, fugindo daquela situação constrangedora e pessoas que ela não gosta, vê um certo coelho branco de colete e relógio na mão e decide segui-lo. Cai, então, em um buraco e vai parar no País das Maravilhas.
Ela já havia visitado aquele mundo antes, mas achava que era apenas um sonho. Neste tempo, muita coisa mudou. A Rainha de Copas (Helena Bonham Carter) agora dá as cartas - e continua mandando cortar cabeças. O Chapeleiro Maluco (Johnny Depp) e a Rainha Branca (Anne Hathaway - uma princesa da Disney em todos os aspectos) esperam sua heroína para colocar ordem no Mundo Subterrâneo. Mas Alice não sabe se ela é essa pessoa. Ela não sabe mais quem ela é, nem o que quer fazer. E são esse caminho pela descoberta e a batalha entre o bem e o mal que vão nortear a história.
Maravilhado antes da hora
Desde que o projeto foi anunciado e a cada linda imagem que aparecia, a expectativa em torno do filme só crescia. Era o primeiro trabalho de Burton pensado em 3-D (antes, só O Estranho Mundo de Jack, que havia sido adaptado para o formato) e era também a volta do cineasta à sua primeira casa, a Disney onde havia trabalhado como animador e designer no início de sua carreira. Mas o primeiro trailer já mostrava que algo estava errado. A empolgação das fotos não se repetiam com as imagens em movimento. E o 3-D mostrado na prévia caía no lugar-comum de atirar coisas na direção do público.
E é isso. Apesar de um argumento interessante e painéis de deixar qualquer um de boca aberta, a história não convence e o 3-D continua apenas apontando para a plateia, como se alguém hoje em dia ainda esticasse o braço na tentativa de pegar os objetos em cena. Para piorar, o Valete (Crispin Glover) que vive colado na Rainha de Copas tem movimentos duros e nada orgânicos em cenas claramente construídas por computação gráfica e há uma desinteressante batalha épica no final, que simplesmente não combina com o que se imagina das histórias escritas por Lewis Carroll.
Tamanho deslize só não põe tudo a perder porque visualmente Alice é maravilhoso. Os cenários, os personagens e, principalmente, os figurinos fazem jus às imagens que vinham pingando pela Internet. Como Alice passa por várias transformações, crescendo e diminuindo de tamanho, ela acaba trajando diversos vestidos diferentes, um mais interessante que o outro na forma como são milimetricamente pensados para parecerem improvisados.
Mas é pouco. E não me entenda mal. Sou fã de Burton e de suas adaptações, porém, ao ver mais uma vez as árvores retorcidas, o cemitério como cenário, Johnny e Helena (a essa altura já somos íntimos) não resta mais dúvidas de que é um filme de Tim Burton. Mas quero ver coisas novas. Ao apenas repetir os desenhos que já fez dezenas de vezes, exagerar nas atuações e pintar tudo de preto, parece que Burton estava apenas trabalhando sob encomenda para a Disney, que por sua vez utiliza o hype em torno do filme para lançar linhas e linhas de produtos licenciados que vão de baralho, jóias e coleções de roupas, aos óbvios games e bonecos. E com isso todo mundo sai perdendo. O público, que vê apenas um filme mediano (com lindo visual). A Disney, que poderia vender muito mais se todos mantivessem a empolgação prévia ao sair dos cinemas. E Burton, que vira motivo de piada.
Fonte: Omelete.com - Marcelo Forlani
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